A carreira de Philippe Bugalski

Philippe Bugalski encontrou a morte ontem, 10 de agosto, depois de uma queda de cerca de 15 metros de uma das árvores da sua propriedade nos arredores de Paris (Vichy), sorte ingrata a de um piloto habituado a combater de forma frenética o cronómetro. ‘Bug’, como era conhecido no universo dos ralis, contava apenas 49 anos de idade e conseguiu colocar o seu nome entre os mais rápidos e destemidos do planeta, ao lado de nomes sonantes como Makinen, McRae, Sainz, Solberg. O título de campeão do mundo nunca viria a ser seu, já que à época nenhum dos construtores franceses apostava em programas completos no Campeonato do Mundo.

Debute com Volkswagen Golf GTI

A carreira de Bugalski tem início em meados da década de 80 ao volante de um  Golf GTI, ao qual se seguiria a evolução com um Renault 5 Turbo.

Em 1993 chega a vez de tentar a sua sorte no WRC com um Lancia Delta. Com um automóvel já ultrapassado e pouco competitivo Philippe consegue aida assim atingir uma vitória no campeonato francês de ralis no Rali do Monte Branco. Tal como Carlos Sainz, que também disputou o WRC de 1993 ao volante de um Lancia Delta inscrito pela equipa privada Jolly Club, o piloto francês também pagaria cara a aposta neste carro.

Regresso ao campeonato francês

Em 1994, e depois de um ano ‘falhado’ no WRC, ‘Bug’ regressa ao Campeonato Francês. Com a equipa DIAC, a formação oficial da Renault, o piloto tripula um dos Clio 16v da equipa, entre um lote de luxo onde figuravam nomes como o veterano Jean Ragnotti, Alain Oreille e Serge Jordan –produzido na academia da ELF Renault, a La Filiére.

Os construtores franceses, PSA e Renault, exerciam então pressão crescente sobre a FIA para imposição do regulamento dedicado aos kit-car – carros com motor atmosférico (sem turbo) e duas rodas motrizes, aos quais eram permitidas alterações superiores ao nível da carroçaria e suspensão face aos grupo A convencionais. Esta nova categoria, defendida pelo lobby dos construtores gauleses, deveria render os ponta-de-lança grupo A 4×4 que lideravam na época o mundial de ralis.

Bugalski nunca abandonou o sonho de regressar ao WRC, já que o envolvimento dos construtores franceses nos ralis aumentava. Todavia, no Rali Grasse-Alpin, Bugalski sofre uma violenta saída de estrada, e o seu navegador Thierry Renaud é vítima de graves ferimentos no pescoço.

Bugalski e Chiaroni

Com Renaud afastado por questões médicas, Bugalski continua com Chiaroni e consegue a afirmação como aluno mais aplicado de Jean Ragnotti ao conquistar o Campeonato de França de Ralis na categoria de 2 litros em 1994. Com uma visão de vanguarda e um caráter jovial, Bugalski dinamiza de forma única o campeonato francês de ralis, tendo até um clube de fãs próprio.

1995 ano de afirmação

Com a vitória nos ralis de Rouerge, Limousin e do Monte-Branco, termina a temporada na segunda posição absoluta e líder entre os 2 litros. Com estes resultados, Bugalski relega para segundo plano Ragnotti no seio da equipa DIAC, e Oreille ruma à Grã Bretanha para defender as cores da filial Renault do outro lado do Canal da Mancha. Ragnotti passa então a ter a certeza de que Bugalski será uma aposta segura para piloto do WRC.

Com a entrada em cena em 96 dos Megane kit-car, reformando os Clio Maxi, um novo fôlego chega aos ralis mundiais: confrontar os grupo A Turbo 4×4 com uma geração super evoluída de automóveis sem turbo e apenas duas rodas motrizes, apesar de em França continuarem os rumores de que a Renault  teria planos para um futuro Megane WRC.

No campeonato francês, passa a assistir-se a uma luta de titãs: Bugalski com o Renault Megane Maxi e Gilles Panizzi com o novo e diabólico 306Maxi, impõem-se perante equipas repletas de experiência. Panizzi acaba por levar de vencida dois anos consecutivos, 96 e 97.

Renault OUT, Citröen IN

No final de 97, com a dissolução do Team DIAC pela parte da Renault, Philippe Bugalski sofre um rude golpe nas suas aspirações, passando a centrar a esperança de voltar a pilotar junto da Citroen que recentemente tinha abandonado o programa Rali-Raide. Guy Fréquelin, diretor desportivo da Citroen Sport, enceta nova etapa na história desportiva da marca do double-chévron: a participação de dois Xsara kit-car no campeonato francês para afinar uma estrutura, que mais tarde viria a revelar-se quase invencível. Bugalski seria então secundado por Patrick Magaud ao volante dos novos carros.

À partida Bugalski  é dado como natural vencedor, mas vê-se traído pelos naturais problemas de juventude do Xsara kit car, perdendo terreno para a estrela ainda em ascensão Simon Jean-Joseph. Bugalski acaba por levar a melhor e sagrar-se Campeão de França de Ralis.

Vitórias no WRC com passo mundialista da Citroen

Em 1999 e com uma estrutura afinada para enfrentar os ralis do campeonato do mundo, a Citröen Sport decide alinhar apenas um Xsara no campeonato francês, entregue a Bugalski que revalidaria em 98 o título, sem grande oposição.

Com a entrada da Citroen nos palcos mundiais é dado voto de confiança a Bugalski para duas provas. O francês não defrauda as expectativas e acaba por surpreender, brindando Fréquelin nos ralis da Córsega e Catalunha com dois triunfos, chegando a crítica a descrever o andamento  nas classificativas de asfalto dos kit car como «marcha imperial». Para a FIA, apenas os WRC são contabilizados na classificação, surgindo apenas a primeira vitória da Citröen no campeonato do mundo em 2002 no Rali da Alemanha com Sebastien Loeb.

Balançada pelos resultados brilhantes da equipa, a Citröen avança com o desenvolvimento do Xsara T4, já com 4 rodas motrizes. Uma espécie de automóvel laboratório direcionada ao amadurecimento de uma versão WRC (4 rodas motrizes e motor sobrealimentado).

Ano 2000: T4 em França, kit car no WRC

Com a entrada no novo milénio, a Citröen volta a marcar presença, ainda que de forma comedida, no Campeonato do Mundo. Com a negação de homologação por parte da FIA do Xsara T4 por não estar à partida de todas as provas do campeonato, a marca francesa vê-se forçada a alinhar os Xsara kit car com Bugalski e o espanhol Jesus Puras no WRC.

Em França, e com regras à medida por parte da Federação Francesa, o Xsara T4 prossegue a sua trajetória de laboratório com Bugalski ao volante, que escreve pela terceira vês no seu palmarés o título de Campeão de França.

2003, entrada numa nova era

Apenas em 2003 a Citröen dá o passo para conquistar o mundo com o novo Xsara WRC. Os resultados anteriores e o percurso sólido da experimentação fazem antever que o construtor francês é uma nova potência nos ralis mundiais. A Bugalski apenas lhe são confiadas credenciais para meio programa mundialista, já que a nova estrela, testada e aprovada pela marca, dá pelo nome de Sébastien Loeb. O plantel de luxo reúne ainda nomes galáticos como Carlos Sainz e Colin McRae.

A ‘reforma’ e uma nova carrreira

No final de 2003, Bugalski anuncia a sua reforma desportiva. Com as atenções centradas em Loeb, o seu passo permanece na sombra da aura dos triunfos de Loeb. Sem abandonar a Citroen Sport, Bugalski continua como piloto de testes da marca, e como importante embaixador da marca nas tarefas de comunicação.

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