Detroit faliu! E agora?

Conhecida por ser a capital mundial do automóvel (Motor City), capital da música soul (Motown), Detroit é também conhecida como Hitsville e Hockeytown. Possuidora de um glamoroso brilho em eras douradas de prosperidade da economia a cidade do estado americano do Michigan está agora em maus lençóis, arrastada para os pantanosos terrenos da crise económica e financeira mundial.

A falência de Detroit surgiu ao abrigo do chamado Chapter 9, uma ressalva do sistema judicial americano para um bem arquitetado plano de recuperação financeira que compreende as vitais injeções de capital. Esta notícia deixou na semana passada apreensivos os milhares que ainda dependem de Detroit para viver, sejam eles ainda empregados ou mesmo já reformados e as respectivas famílias. Em declarações ao site americano Automotive News, Steve Rattler, conhecido nos Estados Unidos como o Czar dos Automóveis por ter sido em 2009 nomeado pelo presidente Obama para delinear um plano de recuperação para a General Motors e a Chrysler que também abriram falência. O economista faz o paralelo entre 2009, data da falência dos dois gigantes americanos fabricantes de automóveis e a notícia de 2013 de que a cidade de Detroit estava falida, afirma que o plano agora é ainda mais complexo. Se a elaboração do plano em 2009 levou apenas seis semanas a estar definido, agora a história poderá levar bastante mais tempo a compor, podendo demorar largos meses.

A presença dos fabricantes de automóveis já não tem a expressão de outrora, a GM emprega cerca de 3000 pessoas na sua sede, o Renaissance Center, e a força da Chrysler na cidade representa apenas pessoal ligado à produção na sua fábrica de Jefferson North onde são produzidos modelos como o Jeep Grand Cherokee e o Dodge Durango. A Ford, o único construtor americano que não passou por um processo de falência, tem uma presença quase inexpressiva dentro dos contornos da cidade de Detroit.

A General Motors veio já a público afirmar que «mantém o orgulho na sua cidade natal, e de que seria melhor que a declaração de falência não acontecesse. Todavia, a companhia acredita que esse dia marcará uma nova era de recuperação da cidade». A Ford afirmou também que Detroit «tem uma fase dificil a ultrapassar, estando os quadros da Ford optimistas e que o empenho dos líderes governamentais será bem sucedido no sentido de reunir os esforços da comunidade». A Chrysler, por seu turno, reforçou apenas o seu compromisso com Detroit: «Continuaremos a investir na cidade e nas suas pessoas. Temos também um papel importante a desempenhar e renovamos o compromisso de revitalização de Detroit».

Os ativos da cidade: Tintoretto, Matisse e 62 carros clássicos

A cidade conta com alguns ativos financeiros que vão desde obras de arte a uma coleção de 62 automóveis clássicos, outrora doados. Entre os automóveis clássicos contam-se um Cadillac Osceola, fabricado em 1905, um Ford Mustang avaliado em mais de dois milhões de dólares (1,5 milhões de euros), um Chrysler Airflow 1934, de quatro portas, e um Chevrolet Corvair 1960, entre outros. No total este lote está orçado em 12 milhões de dólares (9,1 milhões de euros), aos quais há a adicionar os valores elevados (não revelados) de quadros de Matisse e Tintoretto.

Uma cidade fantasma

Detroit foi outrora cidade exemplo de prosperidade a nível mundial. A riqueza trazida pelas fábricas de automóveis no início do século passado foi papel determinante na expansão da cidade. Aqui foram pela primeira vez aplicadas as teorias desenvolvidas por Henry Ford de produção em massa do seu popular automóvel, o Ford T. Seguiu-se o surgimento da General Motors e da Chrysler, que em conjunto deram à luz marcas como Oldsmobile, Pontiac, Saturn, Dodge, Chrysler, Jeep, GMC, Chevrolet e Cadillac entre outras de menor expressão. A decadência trazida pela crise financeira nos primeiros anos do século XXI arrastou Detroit para um caminho de abandono e de classificação como cidade quase fantasma. Foi colocado ao abandono um vasto património industrial, sendo a zona de Motor City o mais gritante exemplo. Sucedem-se inúmeros quarteirões de moradias abandonadas e encerradas pelos bancos já que as famílias, atiradas para o desemprego em virtude de planos de cortes na produção de automóveis. Detroit perdeu cerca de dois terços da sua população em pouco mais de meia dúzia de anos.

Os edíficios abandonados contemplam vastas áreas de arranha-céus, antigos hotéis, fábricas de automóveis e outros componentes ligadas a esta indústria outrora motor dos Estados Unidos da América. Há ainda teatros, escritórios e casas, muitas casas entregues aos bancos por famílias no desemprego que não conseguiam pagar as hipotecas. Algumas destas famílias vão sobrevivendo entre escombros como se de verdadeiros zombies se tratassem. Vagueiam por entre uma cidade abandonada, quase perdida na história mas que tenta a todo o custo regressar ao antigo glamour, com a fibra que sempre conhecemos ao longo dos tempos dos americanos, sempre prontos a fazerem o maior esforço para defender a sua bandeira e o seu país.

O renascimento de Detroit tem já um ambicioso, e oneroso, plano de arquitectura. A Detroit do futuro verá rompidas todas as ligações com o seu passado, até porque grande parte dos edíficios que fizeram a história da cidade estão a ser demolidos como medida de tornar a cidade mais segura e limpa. Detroit Future City está já em marcha, por enquanto no papel. Terá sido para financiar o projecto de relançamento da cidade que foi aberta falência? Há quem acredite que sim, como medida de sedução de possíveis investidores, crentes num futuro como o de outrora: simplesmente brilhante!

Criminalidade em alta

Com o número crescente de habitações e edifícios abandonados a criminalidade tem-se acentuado nos últimos anos de forma exponencial. A cidade chegou a ter capacidade para instalar mais de 2 milhões de pessoas há uma década, número que desceu para pouco mais de meio milhão nos dias de hoje. O policiamento é díficil, tendo levado o governo a instituir uma espécie de recolher obrigatório e zonas interditas, onde nem a polícia se arrisca a ir.

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